Sanyo Gutiérrez voltou a deixar uma reflexão forte sobre a evolução do padel profissional. O argentino considera que as bolas utilizadas atualmente estão a tornar o jogo demasiado rápido e a retirar variedade à modalidade.
Poucos jogadores acompanharam tantas fases diferentes do padel profissional como Sanyo Gutiérrez.
Aos 42 anos, o antigo número um mundial continua a competir ao mais alto nível e não esconde algumas reservas em relação ao caminho que a modalidade tem seguido nos últimos anos.
Em entrevista ao Mundo Deportivo, por ocasião da apresentação da sua nova raquete Eternal, da StarVie, Sanyo centrou grande parte das críticas num elemento aparentemente simples, mas decisivo para a forma como o jogo é disputado: as bolas.
“Estou totalmente contra as bolas que estamos a utilizar”
Para Sanyo, o problema do padel atual não está apenas no facto de os jogadores baterem cada vez mais forte.
O argentino considera que as características das bolas utilizadas atualmente estão a contribuir de forma decisiva para aumentar a velocidade dos encontros.
“Estou totalmente contra as bolas que estamos a utilizar.”
Segundo Sanyo, existem demasiadas provas em que a bola responde rapidamente, independentemente das restantes condições do torneio.
Essa situação acaba por favorecer um padel cada vez mais baseado na potência, no remate e na procura constante pela definição rápida do ponto.
Na sua opinião, o resultado é uma modalidade com menos espaço para algumas das soluções que durante muitos anos fizeram parte da identidade do padel.
“Há uma bola que distorce o desporto”
Sanyo foi ainda mais longe na análise.
“Há uma bola que distorce o desporto.”
O argentino não coloca em causa a evolução física e técnica dos jogadores mais jovens. Pelo contrário, reconhece que o nível aumentou significativamente e que as novas gerações apresentam uma capacidade ofensiva extraordinária.
O problema, para Sanyo, surge quando essa evolução é combinada com condições que tornam o jogo ainda mais rápido.
Quando a bola sai demasiado, aumenta a possibilidade de terminar os pontos através do jogo aéreo e do remate, mesmo a partir de posições onde anteriormente seria necessário construir mais a jogada.
Em sentido contrário, elementos como o balão, a mudança de ritmo, a defesa, a construção do ponto e a utilização dos espaços acabam por perder protagonismo.
Para um jogador cuja carreira ficou marcada precisamente pela inteligência, leitura de jogo e capacidade de encontrar soluções diferentes, esta transformação não passa despercebida.
Sanyo recorda um padel com condições mais variadas
Durante a entrevista, o argentino recordou também a forma como as bolas eram escolhidas há alguns anos.
Segundo explicou, antes de 2022 existia uma maior preocupação em adaptar o tipo de bola às características de cada torneio e às condições existentes.
Em locais naturalmente rápidos, era possível utilizar uma bola que ajudasse a equilibrar o jogo. Quando as condições eram mais lentas, podia optar-se por uma solução diferente.
Essa variedade permitia que os torneios apresentassem características próprias.
Nem todos eram rápidos. Nem todos eram lentos.
E era precisamente essa diferença que obrigava os jogadores a adaptarem-se e permitia que diferentes estilos de jogo tivessem espaço ao longo da temporada.
Para Sanyo, parte desse equilíbrio perdeu-se.
O problema não é haver torneios rápidos
A posição do argentino não passa por defender que todos os torneios devem ser disputados em condições lentas.
A sua crítica está precisamente na falta de variedade.
Um circuito internacional passa por cidades com temperaturas, altitudes, humidade e condições completamente diferentes. Para Sanyo, seria natural que essas diferenças também se refletissem na forma como o padel é jogado.
O problema surge quando, apesar dessas diferenças, o resultado acaba por ser quase sempre um jogo extremamente rápido.
A capacidade de adaptação deveria continuar a fazer parte do desafio.
Há torneios em que a potência pode assumir maior importância e outros em que a paciência, a defesa e a construção do ponto deveriam ter mais influência.
O remate ganhou cada vez mais importância
A discussão levantada por Sanyo surge numa altura em que o jogo aéreo tem um peso cada vez maior no padel profissional.
Os jogadores estão mais fortes fisicamente, as raquetes evoluíram e a capacidade técnica para finalizar pontos a partir de posições cada vez mais difíceis também aumentou.
Hoje é habitual ver jogadores capazes de trazer a bola para o próprio campo ou tirá-la por três mesmo longe da rede.
Essa evolução faz parte do crescimento natural do desporto.
Para Sanyo, porém, quando se juntam jogadores cada vez mais potentes a bolas especialmente rápidas, o equilíbrio pode desaparecer.
A consequência é um jogo em que subir à rede e procurar o remate se torna ainda mais determinante, reduzindo as possibilidades para jogadores com características diferentes.
Menos espaço para diferentes estilos de jogo?
É precisamente essa uma das questões mais interessantes levantadas pelas palavras do argentino.
Durante décadas, o padel permitiu que jogadores muito diferentes conseguissem competir ao mais alto nível.
Uns destacavam-se pela potência. Outros pela defesa, pelo controlo, pela criatividade, pela capacidade de variar os ritmos ou pela forma como conseguiam construir os pontos.
Sanyo é provavelmente um dos melhores exemplos desse segundo perfil.
Nunca precisou de ser o jogador mais potente em campo para chegar ao número um mundial. A sua grande arma sempre esteve na capacidade de perceber o jogo alguns segundos antes dos adversários.
Num padel cada vez mais rápido, jogadores com este tipo de características podem encontrar menos espaço para fazer a diferença.
Uma crítica que Sanyo já tinha feito anteriormente
Também não é a primeira vez que Sanyo Gutiérrez fala sobre a velocidade do padel moderno.
O argentino já tinha manifestado preferência por condições indoor e defendido que a evolução recente do jogo não pode ser explicada apenas pelo aumento da qualidade dos jogadores.
Na altura, chegou a utilizar Agustín Tapia como exemplo.
Tapia já possuía uma capacidade ofensiva extraordinária quando jogou ao lado de Sanyo em 2022. O talento e a potência não apareceram apenas nos últimos anos.
Para o argentino, aquilo que mudou foi também o contexto em que esse talento é utilizado.
Com condições mais rápidas, jogadores com capacidade ofensiva excecional conseguem definir pontos a partir de cada vez mais zonas do campo.
Uma reflexão sobre o futuro do padel
As declarações de Sanyo surgem numa fase de transformação profunda da modalidade.
O padel cresce internacionalmente, chega a novos mercados, atrai grandes marcas e movimenta cada vez mais investimento.
Ao mesmo tempo, o nível dos jogadores continua a subir.
Para uma das figuras mais importantes da história recente da modalidade, esse crescimento não deve significar abandonar algumas das características que tornaram o padel diferente de outros desportos de raquete.
A potência faz parte do jogo e continuará a ser fundamental.
Mas Sanyo defende implicitamente um padel onde a potência seja apenas uma das várias formas de ganhar um ponto, e não uma consequência inevitável das condições existentes em praticamente todos os torneios.
A discussão está longe de ser simples.
Jogadores, organização, marcas de bolas e condições dos recintos têm influência na velocidade final do jogo.
Mas quando alguém com a experiência de Sanyo Gutiérrez afirma que as bolas estão a “distorcer o desporto”, a reflexão merece pelo menos ser ouvida.
A questão fica lançada: o padel atual está a tornar-se demasiado rápido?

